Uma sacudida pra realidade

As muitas particularidades da cultura muçulmana sempre dão o que falar. Não posso falar pelos outros, mas à mim sempre me assustou saber que existem mulheres vivendo nessa realidade, e que muitas provavelmente sofrem com essa condição. A outra parte dessas mulheres, a que não vê problema algum em viver assim, bem se elas conseguem viver com isso, melhor pra elas. Daí você sempre se revolta, acha injusto, se sensibiliza, mas e aí?

Um dia chega alguém quase da sua idade e lhe conta essa realidade, e lhe permite sentir tudo isso sem a distância de uma reportagem sobre um país longíquo. Ele está bem alí, contando a realidade do país dele, numa ilhazinha que você nem sabia que existia. Assusta.

Mas ué, você não já sabia que essa realidade existia?

Mas é só agora que percebo como “naturalmente” isso acontece, e você não tem muita escolha, a não ser se arriscar a fugir ou viver uma história mirabolante como nos filmes.

Me entristeci bastante pela namorada dessa pessoa. Tentei mostrar-lo meu ponto de vista, evitar que ela sofra o quanto eu imagino que ela irá sofrer. Namoram escondidos há muito tempo, e cada encontro era uma aventura, mas não imagino que tivesse o gosto heróico dos filmes, antes deveria ter um gosto de medo e frustração. Ele chegou à declará-la como “não muito inteligente”, e sabe que ela não irá conseguir terminar o terceiro ano, porque era ele quem lhe ajudava a estudar, e a moça está acabada com a ausência dele. Não gostei disso, tomei as dores dela. Resumo da ópera: Ele deve passar bastante tempo longe, a moça provavelmente vai repetir de ano, e como já tem idade o suficiente, propostas de casamento irão aparecer e os pais irão obrigá-la a se casar. O rapaz ainda não tem dinheiro pro dote, e teme voltar e encontrar a moça já casada. Todas as vezes que se falam a moça chora. E por imaginar o quanto ela está sofrendo, por de repente imaginar “e se fosse eu, meu Deus do céu?” disse a ele pra ter calma, esperar e ver se realmente irão obrigá-la a se casar, mas parece que a esperança passou longe daquelas pessoas, ou o cara simplesmente não se importa com a moça. Não soube o que dizer. Pensar mal dele talvez, mas vai saber…

Antes houve uma garota, enviada à outro país pelos pais apenas por ter sido vista se beijando com seu namorado. Voltou quatro anos depois, casada e procurando pelo ex.

– Você tem sorte de morar no Brasil.

– Tenho…

Nesse dia agradeci à Deus por ter vindo da onde eu vim, com seu calor infernal, seu céu azul quase todos os dias do ano, seu amanhecer às seis horas da manhã, suas noites quentes sem um vento de lhe cortar o rosto, e uma liberdade que a gente nunca lembra o quão é preciosa.

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As velas do Mucuripe vão bater no Planalto Central

Então, esses dias bateu aquela saudade de casa. Daquele gosto que nunca gostei muito, mas que já estava acostumada e que agora sinto falta. Aquele gosto de Fortaleza. De casa. De Mainha e Painho. (Da comida eu nem menciono mais porque já é um pleonasmo). Um sábado a tarde no Dragão do Mar, apesar de nunca ter frequentado tanto quanto eu gostaria, também fez falta esses dias. Não foi a primeira vez que esse sentimento bateu na porta do 117, mas dessa vez foi mais intensa. Dava quase pra sentir o gosto de Fortaleza. Apesar do calor infernal, pelo menos eu não tenho um drama interno todas as manhãs do tipo: Hoje dá pra sair de saia? Levar ou não o casaco, eis a questão.

Nesses momentos o melhor a se fazer é ouvir músicas, brasileiras, claro. Foi por isso que vim com todo meu arsenal de músicas, mais um up dos meus dvd’s do Teatro Mágico. Pensei que eles seriam os mestres em sanar minha saudade, que com eles eu me sentiria mais em casa.  E são, mas descobri que não são os mestres supremos. Não foi TM, Manacá, Jeneci nem Tiê que me fizeram voltar a sentir aquele gosto insosso e barulhento de Fortaleza, mas sim Selvagens à Procura de Lei (merci Tay). Não esperava que fosse o som “sujo” deles que mais me fosse fazer sentir em casa. Digo “sujo” pois não sou exímia conhecedora de denominações musicais. Eu diria que é um rock-fundo-de-garagem-sujo. Nada das letras poéticas de TM ou Jeneci. O som talvez. Aquele som meio “início de carreira” de bandas regionais. A palavra deve ser essa: Regionalidade. Vai ver foi isso.

O som deles também está sendo uma terapia de defenestração. Afinal, 3 meses isolada, sem muitos amigos, e altas dificuldades nas disciplinas não dá pra aguentar sem muita revolta, drama e choro. Ah, maldita incapacidade de socialização… mas deixa isso pro meu psicólogo <3