O quanto se perde

20130513_091353Oi, meu nome é Priscila (“Priscilia” para os franceses), e essa é a minha cara depois de  quase 20h sem dormir (no final das contas fechei 24h, meu novo recorde, aplausos s’il vous plaît).

Foi com o dia amanhecendo e o sol matinal entrando pela minha janela que finalizei um trabalho importante, que procrastinei por mais de um mês e que tenho certeza que poderia ter facilmente terminado o mesmo em duas semanas, se tivesse trabalhado direito. Ao invés disso, deixei-me ser controlada pelo meu organismo que, vendo sol até às 21h da noite, não se contenta mais em ir dormir antes das 2h da manhã, e acordar antes das 10h. Ficar acordada até às 5h da manhã se tornou muito fácil. Difícil mesmo era ter a  condição de fazer qualquer coisa minimamente produtiva antes da 1h da manhã. Uma das diversões da madrugada: karaokê com músicas em japonês. Descobri que não tem praticamente mais ninguém morando no “meu” corredor, o que explica porque ainda não vieram bater aqui na minha porta pra reclamar. Um colega francês brincou “nous sommes des vampires”. “Ouais”. Me tornei uma vampira. Café-da-manhã? Sucrilho às 17h da tarde. E quando estiver fazendo sol até às 23h da noite, o que vai ser de mim? Bom, não faço ideia, mas até lá, espero estar passeando dentro dos meus sonhos bizarros quando ele se pôr. A beleza de ver pequenos raios de sol, os primeiros da manhã, entrando pela sua janela e o canto dos pássaros pela manhã valem o esforço de tentar alguma melhora. Vampiros são legais, mas essa coisa de pertencer à noite não é comigo não.

C360_2013-05-12-07-02-43-297Um pequeno espetáculo matinal que estive perdendo por muitos dias.

Ademais, a Final Countdown  já começou faz tempo et il me manque 45 jours, AWEE! E essa reta final promete ser cheia des bonnes surprises \o/ Não sem uma pequena-grande dose de tensão, que inclui a defesa do meu Relatório de Conclusão de Curso na frente todos os professores do curso, sim, to-dos.  Pequeno consolo da minha professora italiana: você fala muito bem. Hum, claro. Não, ela não estava presente na minha primeira e única apresentação de seminário aqui, então, alguém ainda acredita em mim. Tá. Descrença à parte, não estou nem um pouco nervosa, tanto que um show em Estrasburgo me espera no final de semana de véspera da apresentação. Não pude fazer nada quanto à isso, o show foi marcado há trocentos milhões de anos atrás e não, eu não vou deixar de ir quando já tenho meu sofrido ingresso em mãos. Aceito mandinga de boas energias pro dia da defesa :)

Já posso escutar o solo, as guitarras e sentir a dor das malas nos meus braços sedentários:

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Impressões do Velho Mundo

Sabe, eu tenho uma opinião muito melhor do que pensei que teria sobre os franceses. Ok, eu não tenho intimidade com nenhum, talvez por isso mesmo eu não encha o peito pra enumerar os “defeitos” deles. Minhas relações com eles é limitada pela linha da polidez proveniente da falta de intimidade, o que torna tudo muito civilizado e cheio de “Bonjours“, “Bonne journée“, “Ça va” e simpatia gratuita.
Porém, só agora, observo uma coisa: eles têm (e quando digo eles, refiro-me aos professores) uma mareira completamente sem tato para lhe dizer que você fez algo errado. E só percebi isso depois de tantas vezes ver outro rapaz (o “lesado” da turma; a lesada, lógico que sou eu) ser tratado de forma um tanto quanto áspera ao ser corrigido por um professor. Depois de várias vezes ter sentido dó dele, começo a achar que não é algo “normal”, pro meu padrão de vivência no Brasil, a maneira como somos tratados aqui quando cometemos erros. Devo dizer que eu os cometo constantemente, sempre que possível. Semana passada mesmo o professor me olhou com uma cara de quem dizia “Você é louca, minha filha?” (nunca um professor me olhou com uma cara tão feia e desconcertante). Só porque eu coloquei no quadro que 60*60 dava 120. Sim gente, eu faço conta nos dedinhos, papel, calculadora e demoro mais do que as outras pessoas em geral e, quando tenho que usar a cabeça não vai ser indo pra frente do quadro e  sob pressão que eu vou dar a resposta certa.

kaichou (4)Acho que é mais ou menos assim que fico quando vou pro quadro.

LuckyStar (3)

Ou assim.

Eles adoram dizer “O que você tá fazendo?”, “Porque você fez isso?” de uma forma bem pedante quando a gente faz alguma besteira. Eu em geral não sei o que raios estou fazendo (!). Ah e ainda tem a cara que eles fazem…Ah aquela cara de c*. Isso sim me irrita! Em geral fazem isso quando não entendem o que estou falando e a impressão que  tenho é a de que estou com uma fantasia verde com antenas na cabeça e uma nave espacial do meu lado piscando em néon. Poucas vezes eu me incomodei ou fiquei sentida com a forma como eles me tratam, acho que minha vergonha ou vontade de voltar à invisibilidade é tão grande que só quero que eles passem pra próxima vítima e me deixem em paz no meu cantinho. Então não sobra espaço pra mimimi. Acontece que toda vez que vejo como tratam o tal do rapaz, que também é estrangeiro, mas de país francófono, eu me incomodo bastante e sinto que estão o humilhando. E não é diferente da maneira como me tratam, apesar de que não me sinto humilhada. Não quero pintar os franceses aqui de rudes e acusá-los de humilhar as pessoas. É a forma deles de reagir e provavelmente eles nem estão querendo ser maldosos e os alunos nem se ofendem com isso. Estive tentando me lembrar como era no Brasil, só que não lembro. Par contre não vem nenhuma cena na minha memória de situações parecidas que tenham ocorrido no Brasil e, principalmente dos professores fazerem cara de c* pra gente.

De um modo geral, adoro a simpatia e cordialidade gratuita dos franceses. E todo mundo diz que o povão do Sul é mais tranquilo, talvez isso explique muita coisa, mas ainda são franceses e, acima de tudo, europeus. Povão “sem frescura” só o brasileiro mesmo. Temos muita imundície disseminada entre o nosso povo, mas o tal do “calor humano”, acho que desse aí o nosso povo foi bem servido. Pelo menos é a impressão que consigo ter nesse momento, à uma dorsal meso-oceânica de distância. (: