Sobre hibernação, liberdade e realização

Um dia inteiro de apresentações dos rapports de conclusão de curso. O equivalente ao nosso TCC, só que mais levinho, porém tenso o suficiente pra quem é estrangeiro e fala feito índio que nem eu. Apresentação marcada para às 14:30 do dia 3 de junho, só pra dar aquela indigestão, ieeei! Dor de cabeça das brabas desde a noite anterior. À beira de um colapso nervoso? Siiiiiim!

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O plano era: ver o que eu conseguia apresentar sem ter que ler os slides, marcar os pontos onde eu necessariamente iria ler na apresentação, e levar um roteiro de 3 páginas pra uma apresentação de 15 minutos, a mais longa até agora, e no nível expert: En parlant français. Tudo isso pra evitar o “erro no sistema” que sempre tenho em seminários: Acho que estou preparada e, quando chega o momento, parece que estou rolando barranco abaixo e simplesmente não consigo pensar no que estou falando, só falo e, não pensando, esqueço mais da metade do que tinha planejado falar. Como o nível de exigência pro trabalho de conclusão de curso aqui não é tão alto como nas apresentações de TCC que já vi no BR, me dei ao luxo de fazer uma pequena cola de 3 páginas e foi só torcer pra não ter um colapso nervoso (o que, lhes garanto, quase aconteceu).

Explicando: pelo que pude perceber, não há uma familiarização com essa coisa de laboratórios e relatórios científicos dos alunos da graduação na FR, até porque invariavelmente a graduação só dura 3 anos, o que explica porque o nível de exigência do trabalho de conclusão de curso deles é inferior, em comparação com o que estamos acostumados no BR. Isso pelo menos foi o que pude constatar com a minha experiência na Uni que estou, mas acredito que o padrão não muda muito. Então, eu não estou falando aqui de uma mega-defesa-de-monografia. Se trata mais de um relatório de revisão bibliográfica nos moldes de uma produção científica com citações e aquele mimimi todo, onde tínhamos um orientador, um avaliador (que não necessariamente precisa ser da área do seu tema de estudo) e um máximo de 26 páginas à preencher. Consegui 12, quase morrendo. Ou seja, era só um seminário de 15 minutos sobre um relatório, onde no final o avaliador iria lhe esculachar. :)

Então, um dia antes da apresentação, comecei a pirar lindamente. Não sabia como encarar o fato da minha avaliadora ser leiga no assunto que tratei. Talvez por ela não conhecer nada, ela quisesse conhecer tudo e fizesse horrores de questões escabrosas, ou talvez ela por não conhecer nada, não tivesse questões muito estrambólicas (meu palavreado tá bem estranho ultimamente). Bom, acho que o que acabou acontecendo foi a segunda opção. Durante a apresentação eu tive vários erros no sistemas e panes. Senti a voz tremer. Tive a infelicidade de segurar uma lapiseira por metade da apresentação e mostrar a todos o quão nervosa estava girando aquela porqueira loucamente. Ou seja: eu estava praticamente surtando. Li um bocado de frases porque acabei esquecendo o que tinha que comentar, o que também me deixou bastante tensa porque eu sou a pessoa mais chata e perfeccionista do mundo com essa coisa de “boa apresentação”, apesar do meu nervosismo. Quem já fez trabalho em grupo comigo sabe o quão chata e detalhista eu posso ser :)))

Enfim, acabou.

E o coordenador, que passou o dia distribuindo kamehameha’s e hadouken’s pros alunos disse: 15 minutos em ponto! Meu primeiro risinho tentando conter minha felicidade, mas as Mini Priscila’s da minha cabeça estavam assim:

00 (6)Ok, te controla menina! E a minha avaliadora começou a falar e, de início já me parabenizou por essa coisa de ser estrangeira e blá blá blá e estar me apresentando blá blá blá, eu vou desmaiar!  Tive espasmos retardados de sorrisos bobos, que depois desceu pro pescoço (?). Te controla, te controla. Depois, mais elogios: por ter citado e referenciado direitinho (como disse, os alunos aqui não estão muito familiarizados por isso. Muitos foram seriamente criticados nesses aspectos =\ ),  pela forma de apresentação, pela organização, pelas boas definições. Obrigada Mãe, Pai, Labomar, Zoobentos, professores que já “escatitaram” meus trabalhos… *-*
Depois, o que não costumou acontecer nas outras apresentações, dois outros professores fizeram comentários sobre algum ponto do meu tema (em geral, só o orientador e o avaliador falavam), minha orientadora não fez nenhum comentário. Queria saber a opinião dela :( Daí o coordenador fez uma pergunta escabrosa u.u mas eu consegui responder (não sei como, porque como mencionei, meu cérebro simplesmente cai fora nesses momentos).

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Vale ressaltar que praticamente só a minha orientadora domina o tema sobre o qual eu falei  (isso à nível da Universidade e dos professores que estavam presentes, claro), o que talvez explique porque não tive tantos hadouken’s e kamehameha’s na minha apresentação, mas tá, estou tentando não me sabotar tirando o meu pequeno mérito de mim mesma (mas tá difícil :D). Resumo da ópera: muitos comentários positivos, nenhum fatality, porém eu invariavelmente quase tive um troço nessa apresentação. Quando voltei pro meu cantinho da invisibilidade duas colegas francesas (mentira, uma é estoniana, mas já mora há bastante tempo na FR) me parabenizaram também. Ao chegar em casa, virei comediante, cantora, dançarina e pirada, de alegria.

00 (15)E assim estou praticamente livre, me faltando só fazer as provas de recuperação que, por sinal, descobri que se tratam em sua grande maioria de provas orais. UATAFÓQUI? E poderei começar a eliminar da minha lista todas as pequenas burocracias que devo fazer antes de deixar essas Terras. E finalmente posso hibernar hoje por umas boas 12, ou quem sabe 15 horas de sono. Só pra constar, o sistema aqui é MUITO legal: duas semanas de provas antes de uma apresentação de trabalho de conclusão de curso. Palmas pra quem implantou esse sistema! E, AAAAAAAAAAAAAAAAAAH *grito de felicidade suprema*

00 (58)E é isso (se alguém tiver lido até aqui) caro leitor, um post enormemente grande, pra uma felicidade gigante :3

*Achei uma utilidade para os meus emoticons do finado msn † *

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Impressões do Velho Mundo

Sabe, eu tenho uma opinião muito melhor do que pensei que teria sobre os franceses. Ok, eu não tenho intimidade com nenhum, talvez por isso mesmo eu não encha o peito pra enumerar os “defeitos” deles. Minhas relações com eles é limitada pela linha da polidez proveniente da falta de intimidade, o que torna tudo muito civilizado e cheio de “Bonjours“, “Bonne journée“, “Ça va” e simpatia gratuita.
Porém, só agora, observo uma coisa: eles têm (e quando digo eles, refiro-me aos professores) uma mareira completamente sem tato para lhe dizer que você fez algo errado. E só percebi isso depois de tantas vezes ver outro rapaz (o “lesado” da turma; a lesada, lógico que sou eu) ser tratado de forma um tanto quanto áspera ao ser corrigido por um professor. Depois de várias vezes ter sentido dó dele, começo a achar que não é algo “normal”, pro meu padrão de vivência no Brasil, a maneira como somos tratados aqui quando cometemos erros. Devo dizer que eu os cometo constantemente, sempre que possível. Semana passada mesmo o professor me olhou com uma cara de quem dizia “Você é louca, minha filha?” (nunca um professor me olhou com uma cara tão feia e desconcertante). Só porque eu coloquei no quadro que 60*60 dava 120. Sim gente, eu faço conta nos dedinhos, papel, calculadora e demoro mais do que as outras pessoas em geral e, quando tenho que usar a cabeça não vai ser indo pra frente do quadro e  sob pressão que eu vou dar a resposta certa.

kaichou (4)Acho que é mais ou menos assim que fico quando vou pro quadro.

LuckyStar (3)

Ou assim.

Eles adoram dizer “O que você tá fazendo?”, “Porque você fez isso?” de uma forma bem pedante quando a gente faz alguma besteira. Eu em geral não sei o que raios estou fazendo (!). Ah e ainda tem a cara que eles fazem…Ah aquela cara de c*. Isso sim me irrita! Em geral fazem isso quando não entendem o que estou falando e a impressão que  tenho é a de que estou com uma fantasia verde com antenas na cabeça e uma nave espacial do meu lado piscando em néon. Poucas vezes eu me incomodei ou fiquei sentida com a forma como eles me tratam, acho que minha vergonha ou vontade de voltar à invisibilidade é tão grande que só quero que eles passem pra próxima vítima e me deixem em paz no meu cantinho. Então não sobra espaço pra mimimi. Acontece que toda vez que vejo como tratam o tal do rapaz, que também é estrangeiro, mas de país francófono, eu me incomodo bastante e sinto que estão o humilhando. E não é diferente da maneira como me tratam, apesar de que não me sinto humilhada. Não quero pintar os franceses aqui de rudes e acusá-los de humilhar as pessoas. É a forma deles de reagir e provavelmente eles nem estão querendo ser maldosos e os alunos nem se ofendem com isso. Estive tentando me lembrar como era no Brasil, só que não lembro. Par contre não vem nenhuma cena na minha memória de situações parecidas que tenham ocorrido no Brasil e, principalmente dos professores fazerem cara de c* pra gente.

De um modo geral, adoro a simpatia e cordialidade gratuita dos franceses. E todo mundo diz que o povão do Sul é mais tranquilo, talvez isso explique muita coisa, mas ainda são franceses e, acima de tudo, europeus. Povão “sem frescura” só o brasileiro mesmo. Temos muita imundície disseminada entre o nosso povo, mas o tal do “calor humano”, acho que desse aí o nosso povo foi bem servido. Pelo menos é a impressão que consigo ter nesse momento, à uma dorsal meso-oceânica de distância. (: