A imensidão azul

Semana passada (entre quarta-feira e sábado) eu fiz o curso mais esperado pela maioria dos aspirantes a Oceanógrafos. Curso de mergulho. 4 dias. 7 mergulhos. Todos em ambiente natural. Pera, hem? Sim, desde o primeiro mergulho já fui jogada pro marzão Mediterrâneo, pra minha euforia e, medo. Fiz o curso num vilarejo/micro-cidade chamada Banyuls-Sur-Mer (à 1h e 20 minutos de Perpignan), quaaase na fronteira com a Espanha. De início pensei que seria só alegria. No caminho de ida já estava pensando: “Se não trabalhar embarcada, quero trabalhar mergulhando!“, porém quando a coisa toda começou, percebi que a última parte com que iria me preocupar, seria com a magia.

Depois de umas instruções básicas, já fomos em uma pequena embarcação em direção ao local de mergulho, um outro iniciante, a instrutora, uma moça da escola e eu. Depois de totalmente equipada, eu me senti uma astronauta. A única diferença era que eu não conseguia respirar. Meu cérebro no auge da sua inteligência e nervosismo não me deixava respirar pela boca e, imagine uma galinha, quando a gente solta ela do alto e ela se debate toda até o chão, foi mais ou menos assim que eu caí na água. Sim, uma vergonha. Eu não conseguia me controlar e, involuntariamente, tentava respirar pelo nariz, quando o mesmo estava tampado pela máscara. Coisas de Priscila. A instrutora (depois de me acalmar e insistir pra que eu respirasse pela boca) me acompanhou (segurando pela mão!) no primeiro mergulho e, eu tive uma dificuldade enorme em controlar minha respiração. Ou eu respirava rápido demais (o que não se deve fazer em mergulho) ou simplesmente esquecia de respirar (SIM!). Foi um show de falta de jeito. Adicionado a tudo isso, comecei a lembrar de uma amiga que teve uma experiência não muito agradável em mergulho e, juntando com o meu desespero ao cair na água e não conseguir respirar (se você, por um breve instante já tentou respirar e simplesmente não conseguiu por n motivos, então você deve saber da agonia que estou falando), com essas lembranças perturbadoras, eu comecei a entrar em pânico. Comecei a pensar: e se eu morrer aqui? E se algo der errado? E se eu me perder da instrutora? E se… aimeudeusdocéueuvoumorreeeeeeeeer! Sim, foi vexativo, perturbador e broxante meu primeiro mergulho, mas tiveram pequenas janelas de momentos mágicos, quando vi um polvo, peixinhos, estrela-do-mar e um ¹sabelídeo. Resumo da ópera:

184044_527684920579921_736878857_nEra mais ou menos esse o meu sentimento. Comecei a suspeitar que tenho fobia de mergulhar. Não sei. Progredi bastante ao longo dos mergulhos (fazia dois por dia), mas ainda não me sentia muito à vontade. Algo sempre me preocupava: a respiração que eu não controlava, a flutuação que eu também não controlava, a minha mobilidade, que eu também não controlava, e tentar fazer tudo isso ao mesmo tempo lembrando de mexer as pernas…é claro que eu não conseguia. Mais uma prova de que eu sou um erro no sistema e deveria ter nascido homem, porque se eu me concentrava em uma coisa, esquecia todas as outras :D

No segundo dia houveram algumas melhoras, mas no geral eu sempre estava tão preocupada em controlar alguma coisa que, o Novo Mundo que me cercava acabava me passando despercebido, o que foi uma pena. No terceiro dia eu não achei mais que ia morrer (exceto quando não consegui controlar direito a pressão do meu ouvido durante a descida) e, no mergulho da tarde eu já quase conseguia não me sentir uma estranha àquele Mundo. Podia me considerar quase uma aspirante (desajeitada) à peixinho e, quando via um na minha frente eu já conseguia pensar em comentários bobos do tipo: “Oi peixinho! Volta aqui!” ou apostar comigo mesma em que momento um sabelídio iria “se esconder” quando eu passasse. Eu já conseguia perceber melhor aquele “Novo Mundo” e pensar no quão MÁGICO era estar ali. Uma das coisas mais legais que eu achava era (além dos bichinhos, porque falar que eles eram mágicos é quase um pleonasmo)  quando a gente tinha que seguir o instrutor por dentro de um “buraco” nas rochas. Achava que estava em um filme de aventura ahaha, apesar de que bati minha cabeça na primeira vez que fiz essa passagem. Bom, mas a minha última passagem foi com doses extras de emoção porque fui a última a passar e, bem quando estava me preparando pra passar, comecei a flutuar (ir em direção à superfície) o que é perigoso se você está à uma profundidade muito grande e começa a subir rápido demais. No auge do meu “desespero-galináceo” eu tentei reverter a situação das duas formas possíveis, com a respiração e com o colete. Até que deu certo. Passei pelo buraco sem que ninguém precisasse voltar pra me buscar (Priscila 1 x 0 Vergonha Alheia). Vale ressaltar, claro, que eu já tinha atingido a superfície dessa forma umas duas vezes antes (na terceira eu tinha que conseguir NÃO voltar à superfície, né!) o que é bem ridículo. Tente imaginar a cena: estão todos lá mergulhando e, de repente uma retardada começa a subir, subir, subir, até voltar a superfície. É uma situação meio “hãn?”. Esse era um dos meus maiores problemas: manter a flutuabilidade neutra. Você pode fazer isso com a respiração ou com o colete e, basicamente, é o que lhe impede de se arrastar no fundo marinho ou subir desenfreadamente. Eu me sentia em um filme de Missão Impossível quando estávamos treinando flutuabilidade próximos ao fundo, e o objetivo era não encostar, óbvio. Tudo sempre se passava exatamente como num filme de ação, até eu começar a afundar e encostar no assoalho feito uma pateta, tentando voltar à estabilidade. Para piorar, eu sempre achava que iria ter um mega-coral-from-hell debaixo de mim e que eu ia morrer ali (?), ou que eu ia bater a mão bem em cima de um ouriço (??) ou em cima de uma esponja e que as ²espículas dela iriam deixar minha mão coçando até a minha 30ª geração (???). Felizmente, no ÚLTIMO dia eu estava MAIS OU MENOS dominando a técnica-Missão-Impossível-de-mergulhar-próximo-ao-fundo-sem-encostar-nele.

As simulações de pane de ar era outro espetáculo à parte. Na primeira vez eu simplesmente me recusei a tirar o … (eu não sei como é o nome daquilo em PT, mas é o trocinho que te permite respirar pela boca) pra simular um problema nele. Tá, depois quando me sentia um pouco mais segura eu tive que fazer as simulações. No final das contas acho que só precisava me acalmar mais e acostumar com essa coisa de respirar debaixo d’água. No geral, foi uma experiência muito cansativa, porém mágica. Não sei se passei no exame final, porque não tive tempo (nem disposição) de ler o manual inteiro (abafemos essa parte)³. Me decepcionei um bocado com a minha total falta de jeito. Foi mais difícil do que eu esperava. Pensei que seria mais um divertimento do que qualquer outra coisa, mas existe muita tensão me separando dos momentos mágicos. Ainda assim, ver de pertinho uma pequena amostra da Imensidão Azul foi impagável: estrelas-do-mar, meros, ouriços, peixinhos coloridos, polvos, sabelídeos (eu acho eles fofinhos, principalmente quando se escondem), até mesmo a forma como a água ficava à medida que me aproximava da superfície, tudo era apaixonante. Quase me fazia querer morar ali, pertencer àquele meio onde tudo parece se passar de forma mais lenta e silenciosa do que no nosso Mundo. Espero ter outras oportunidades como essa e que da próxima vez eu me pareça menos com uma galinha desesperada (pode rir, leitor).

 ◕‿◕

Notas:

¹ Sabelídeos são poliquetas (é um parente das minhocas) que vivem em tubos fixados no substrato marinho e possuem prolongamentos (alguns podem ser coloridos *-*) para filtrar a água e, se ocorrer uma movimentação estranha ou ameaça eles guardam/escondem esses prolongamentos dentro do tubo ondem vivem.

² Espículas são estruturas no corpo das esponjas que ajudam na sustentação, porém elas podem causar irritações na pele e essas coisas todas. A maioria das esponjas têm, exceto as que possuem apenas espongina, vulgo: as esponjas fofinhas que todo mundo conhece. E as espículas são LINDAS, croyez-moi! (dê um google imagem aê, sim?)

³ Acabei de receber um e-mail me informando do resultado e, eu passei! yeeep \o/

Há! Priscila também é cultura. ^^,

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