Merci d’avoir enchanté ma vie

“Je peux mourir demain
Mais ça n’change rien
J’ai reçu de ses mains
Le bonheur ancré dans mon âme
C ‘est même trop pour un seul homme
Je l’ai vue partir, sans rien dire
Fallait seulement qu’elle respire”

Fallait seulement qu’elle respire. Era preciso apenas que ela respirasse. Respirar. Não. É ironicamente mórbido. Deve estar escrito em algum livro de psicologia que os introspectivos têm tendência a passarem tardes inteiras à fio ouvindo a mesma música quando ocorre o fenômeno chamado “auto-identificação”. Dernière. A primeira palavra que aprendi. Merci d’avoir enchanté ma vie. A primeira frase. Escrita na porta, caderno, um desenho guardado até hoje levado para quase todos os lugares. O primeiro refrão tirado no violão, o único que aprendi. O quão profunda pode ser uma impressão causada por uma música que parecia ser a trilha sonora para um momento de agonia? Para quem tem tendências roteiristas e sonhadora, não havia momento mais apropriado para a descoberta. Tudo isso naquela língua. Charmosa para as mulheres, gay para os homens. Um dia alguém aleatório me disse o quão bonita eu ficava de cabelo solto. Tão copiosamente igual àquela mesma forma. Aquela maneira que. Em um doce delírio, eu sabia, acreditava. Não era um evento aleatório. Era como das outras vezes. A única coisa que ainda estava em minhas mãos era tentar continuar a vida, perpetuando alguns hábitos, maneiras, palavras estranhas, sonhos. Seus. E trancando bem as lembranças. Minhas. O plano era simples: terminar aquele curso que você não terminou.

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Quatro, cinco anos depois, em um dia aleatório, ouvindo músicas aleatórias, Benoît canta …je veux juste une dernière danse. E eu penso: … Não pensei que isso aconteceria. Metade da minha sanidade perdeu-se na tentativa de entender porque uma dor tão dilacerante tão cedo. Porque ser obrigada a passar por aquele túnel de espinhos e perder mais do que lágrimas pelo caminho? Porque não eu? Não creio que foi para me trazer a um lugar chamado Perpignan, mas sem isso, com certeza muitas voltas ainda teriam acontecido. Ou não. Quem saberá? Porém eu gargalharia escandalosamente de incredulidade na cara de quem me dissesse o que aconteceria no “depois” que eu tanto ansiava e que parecia nunca chegar. Aquele tempo sufocante. E chegou. E passou. E hoje não julgo que minha pronúncia seja tão bonita quanto eu gostaria que fosse, na verdade não vejo charme algum nela, mas ainda tento deixar o cabelo solto. Quanto a dor nas costas, já passou; mas a esclerose, ainda não.

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