Sozinha, de pé sobre o zinco

Hoje eu quero falar de uma coisa muito legal (não, não é sobre a nova Tekpix) que aconteceu em…oububro. Sim, meses depois eu venho aqui falar de uma das melhores experiências que esse intercâmbio me proporcionou: o show do Debout sur le Zinc.

Sim, eu sei, acho que só eu conheço essa banda. *menos Priscila, menos* Bom, tenho o dom de gostar dessas bandas desconhecidas, o que reduz, e muito, a possibilidade de vê-los tocando ao vivo. Reduz tanto, que  eu nem me imaginava num show desses cara. Ou melhor, me imaginava, com uma saia longa dançando a cada música, algo meio “flor de Manacá”. Mas como você percebe, querido leitor, isso era algo completamente impossível. Priscila dançando publicamente? Oras, só pode ser num mundo paralelo que não existe, senão na minha imaginação. Pois bem, imagine só como me senti então, por ter estado em uma situação que pra mim, de tão perfeita, era impossível?

Tinha tudo para ser “impossível” mesmo. Eu não tinha companhia pra viagem. Nunca tinha viajado sozinha. Nunca nem mesmo fui pra um show sozinha. Oh céus. E o que a gente faz? Claro que não deixa uma oportunidade dessas passar, engole o medo e vai! E aprende. Vai com tudo pra uma das melhores experiências da sua vida. Essa é uma das vantagens de morar fora, você aprende, na marra e faz coisas que nunca antes se imaginou fazendo.

Claro que não foi assim tão fácil. Foi uma novela quand même. O show aconteceu no dia 12 de outubro em uma micro-cidade (aqui eles chamam de “aglomeração”) do lado de Montpellier, cidade francesa bem agitadinha, diferente de Baillargues, cidade do show, que parecia uma verdadeira cidade fantasma, esquecida no tempo, sem habitantes e cheia de casas da alta sociedade. Inicialmente o show estava previsto para o dia 29 de setembro. Sim, inicialmente. Fui para Montpellier, passeei na cidade e, no dia do show, lá fui eu passar 1h no trajeto Montpellier-Baillargues com um céu que ameaçava cair sobre nossas cabeças e um vento que parecia querer nos expulsar daquela cidade. Da chuva nem comento. Chego ao local do show (depois de ter esperado que alguém na rua aparecesse pra pedir informações sobre como chegar no local) e o que encontro?

254053_

Daí a desolação: Gastar mais grana pra voltar à cidade, ou perder essa oportunidade? Primeira opção, sem nem pensar muito. 15 dias depois eu estava lá de volta. Voltei, cheguei uma hora e meia antes do show e…pouquíssimas pessoas. Uma ansiedade. Um pouquinho de tristeza por estar sozinha. Aquele pensamento de “vou mesmo viver isso?” Parecia irreal. O show feito pra mim. Consegui um lugar na grade, o que não foi muito difícil de conseguir, bastou autorizarem nossa entrada, me encaminhei pra lá e não arredei o pé, depois de instalada. O curioso é que do meu lado tinha um rapaz, também forever alone com a mesma cara de bobo que eu supunha também estar. A banda chegou para passar o som. No meio disso, olha só a surpresa:

Preciso dizer que fiquei rindo em uma piada interna que provavelmente só eu entendia? Aquele momento foi meu, de mais ninguém. ♥ Nem acreditei. Ai deuses, são mesmo eles? Olha o fofíssimo do Simon (violino, trompete e voz) e o Romain (clarinete, guitarra e voz) seduzindo *_* O show começou com a minha música preferida. Começou perfeito. Até um grupo de bêbados se instalar entre eu e o rapaz com cara de bobo, pra estragar nosso show, mas…cotoco pra eles! Nada poderia estragar aquele momento (mas confesso que o show teria sido melhor sem eles). Não gritei. A gente tem que manter a finesse no exterior, né. Por dentro eu gritava, dançava, pulava. Por fora eu só sorri, feito boba, olhando pra cada um deles de perto. Vendo as performances que só via pelo youtube. Ouvindo aqueles acordes maravilhosos. Cantando com um francês capenga e uma voz de taquara rachada. Rindo das bobagens que eles faziam no palco.

Para além de tudo isso, tinha como o sonho ser ainda mais lindo? Tinha. Ao final do show, muito simpaticamente o vocalista anuncia que eles vão se encontrar com a platéia em 10 minutos para conversar e beber alguma coisa. AIMEUDEUSDOCÉUMESEGURAMÃE! Lá fui eu esperar quietinha a minha vez, com o cd recém comprado em mãos e a maior cara de boba que eu poderia estar. Ele (Simon, o vocalista) falou comigo com o maior sorriso no rosto, e tudo que consegui dizer enquanto ele autografava meu cd foi:

– Eu conheci a música de vocês no Brasil

– Mesmo?

– Sim, no curso de francês.

– Qual foi a primeira música que você escutou?

– Les mots d’amour. Desde então eu me apaixonei.

Bom, aí o diálogo terminou porque eu morri. Mentira, ainda tive um último suspiro pra pedir uma foto.

Voltei para o hotel saltitante, quase dançando nas ruas desertas. Eufórica. Mas aí já não encontrava a rua certa e o medo começou a me invadir. Desespero, na verdade. As ruas estavam desertas e escuras. E não era um local centralizado, de modo que tive que contar com a sorte e providência divina (andei lendo Jane Eyre) para que aparecesse alguém a quem eu pudesse pedir informação. Rezei muito, só queria estar de volta ao hotel e saborear aquele momento que tinha acabado de viver. A salvação veio e o hotel apareceu na minha frente. Subi as escadas num misto de correria e dança, dessa vez agradecendo por ter chegado em paz e agora poder contar minha história. Me joguei na cama, sonhando e sonhando. Quando acordei, achei que ainda estava sonhando.

Sempre que fico triste, assisto de novo os vídeos que gravei no show. O efeito é sempre o mesmo: satisfação por ter vivido tudo isso. Esse momento. Aquele tipo de momento que você nunca acha que vai acontecer, daí uma série de eventos inimagináveis acontecem e você *puff* cai naquela cena. E vive. Vive um sonho que você nunca nem ao menos teve coragem de sonhar. E vive. E conta a história.

Ah, e a cereja do bolo de framboesa foi ter visto dois integrantes da banda na estação de trem no dia seguinte (:

46338_.jpg

Um dia em Carcassonne

Hoje a inspiração pegou suas “trôxas” e foi passear, me deixando aqui sem inspiração pra poetizar no título. Pois bem. Era para ter sido um dia amargo. Não era para ter sido assim. Começou errado. “Mas e aí?” A vida lhe deu limões bem azedos, agora faça uma limonada bem doce, docinha. No último dia 3, terceira visita à Carcassonne, cidade medieval francesa, há pouco mais de duas horinhas de Perpi. Se por fotos não é o suficiente pra se apaixonar, leia “O labirinto” e sentirá uma vontade enorme de estar nesse lugar (porque Paris já é clichê, não é). Aliás, bem que queria ter trazido meu livro. Reler a história e depois visitar a cidade teria sido ainda mais mágico, mas deixe minhas quase 700 páginas quietinhas lá na minha estante mesmo.

DSC07139

O dia. Em outros tempos a palavrinha mágica “Carcassonne” teria feito com que eu desse pulinhos e meus olhos brilhassem de euforia. Naquele dia, deixa pra lá. Tanto sono…tanto tudo. Mas vamos tentar fazer a limonada? Leve um amigo com você, um daqueles nerds que você sabe que vai adorar estar naquele lugar histórico, cenário de livros, micro-séries e inspirador de jogos de tabuleiro. Pronto, metade da limonada já ficou pronta. Daí junte uma visita, “de grátis” ao Castelo (Château Comtal), que não me impressionou mais do que a totalidade da Cidade Medieval, mas ainda não tinha visitado. E para dar a última açucarada: um céu de um azul tão intenso e lindo, que só posso pensar que foi justamente para dar o toque final de mágica ao dia. Pronto, não precisou de muito.

DSC07204Pont Vieux, ainda com decoração natalina (:

Acorda cedo pra pegar o trem. Mochila com mantimentos pronta e seguimos. Paradinha em Narbonne, para apreciar a vista. Chegamos! Pela primeira vez vi a cidade do lado de fora dos muros medievais e, posso dizer que ela é linda do mesmo jeito. Houve quem dissesse que ela era um pouco suja, mas nem reparei, salvo as caquinhas de cachorro >.< Passamos pela Pont Vieux (Ponte Velha) e me encantei com ela. Só tinha passado por lá a noite. Parece que você está entrando em um filme. Só me faltou o figurino de época. Chegamos quando os nativos ainda estavam acordando. Paradinha no meio de uma rua vazia pro seu amigo comer uma baguette française, tirando onda de francês. E vamos logo, em direção aqueles muros que têm tantas histórias pra contar. Estava friiiiiiiio e ventando muito, mas que importa? O céu estava azul.

DSC07093

O Castelo. Enorme. Com influências que remontam dos tempos do Império Romano e sucessivas baldeiações de conquistas, que findaram em várias influencias arquitetônicas. Nessa parte gostaria de me lembrar da história do livro que li, para poder sentir a personagem (Alaïs), como se estivesse visitando a casa de uma amiga (mesmo me lembrando que a maior parte da história se passa longe do Castelo). Bom, pelo menos do Rio eu me lembro, e esse eu vi sob a ponte :D

cbb_.jpgDSC07149DSC07201Rio Aude

Depois da visita, que durou muito tempo, um passeio pela Cidade Medieval. Fotos. Lanche. Cachorros fofos e enormes. Souvenirs. Destes eu já me cansei, mas (:

Para fechar o dia: carrossel, mais céu azul, doces e o trem.

Sei de algumas pessoas que gostariam de visitar a cidade. Acreditem, eu gostaria de levar todos vocês.

DSC07088